Sumário
1. Da dificuldade de falar sobre o amor
2. Termos gregos para a palavra "amor"
2.1 Agape
2.2 Eros
2.3 Philos
3. O amor platônico
4. Crítica à noção de amor complementar
5. O amor na contemporaneidade
6. Poemas sobre o amor
1. Da dificuldade de falar sobre o amor
Ardendo
de inveja da beleza de Psiquê, Afrodite ordenou a seu filho Eros que a fizesse
apaixonar-se pela mais feia e desprezível das criaturas, mas Eros (ou Cupido), tomado de
amor por Psiquê, levou-a para um palácio suntuoso, onde a visitava todas as noites, na
escuridão. Sua única exigência era que ela nunca tentasse ver-lhe o rosto. Instigada
por suas irmãs, ela quis, numa noite, identificar seu amante adormecido. Ao perceber que
era o próprio Amor, ficou perdidamente apaixonada, porém uma gota de óleo da lâmpada
caiu no ombro de Eros, despertando-o. Ele desapareceu e o romance ficou a descoberto. Para
obter o perdão de Afrodite, Psiquê trabalhou como escrava, cumprindo diversas tarefas
consideradas impossíveis. Finalmente, apaziguada, a deusa Afrodite perdoou os dois e
permitiu a união.
Psiquê é alma humana em sua luta para reencontrar a felicidade, o gosto pelas coisas. Mas o mito deixa implícitas duas advertências: aquele que se entrega totalmente ao amor está condenado a perder-se; e aquele que tenta descobrir o que é o amor com olhos que não sejam o do coração corre o risco de perder o amor. Perdê-lo em sua essência, que não pode ser traduzida em palavras: falar sobre o amor é incorrer neste último risco.
2. Termos gregos para a palavra amor
2.1 Agape
É o amor benevolente que se contrapõe ao amor concupiscente (ou apego). No amor benevolente deseja-se fazer o bem ao outro. No amor concupiscente deseja-se possuir o bem que já existe no outro. Exemplo de amor benevolente é o da parábola do bom samaritano. Exemplo de amor concupiscente é o do homem pelo dinheiro. Nas escrituras sagradas agape é traduzido como charitas (caridade). Considerada a maior das virtudes. Veja-se as palavras do apóstolo Paulo.
1. Ainda que eu falasse línguas, as dos homens e dos anjos, se eu não tivesse o amor, seria como sino ruidoso ou como címbalo estridente.
2. Ainda que eu tivesse o dom da profecia, o conhecimento de todos os mistérios e de toda a ciência; ainda que eu tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tivesse o amor, eu não seria nada.
3. Ainda que eu distribuísse todos os meus bens aos famintos, ainda que entregasse o meu corpo às chamas, se não tivesse o amor, nada disso me adiantaria.
4. O amor é paciente, o amor é prestativo; não é invejoso, não se ostenta, não se incha de orgulho.
5. Nada faz de inconveniente, não procura seu próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor.
6. Não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade.
7. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
8. O amor jamais passará. As profecias desaparecerão, as línguas cessarão, a ciência também desaparecerá.
9. Pois o nosso conhecimento é limitado; limitada é também a nossa profecia.
10. Mas, quando vier a perfeição, desaparecerá o que é limitado.
11. Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Depois que me tornei adulto, deixei o que era próprio de criança.
12. Agora vemos como em espelho e de maneira confusa; mas depois veremos face a face. Agora o meu conhecimento é limitado, mas depois conhecerei como sou conhecido.
13. Agora, portanto, permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e o amor. A maior delas, porém, é o amor.[1]
2.2 Eros
Alguns escritos versam sobre uma interpretação filosófica de Eros, colocando-o como o princípio responsável pela geração e pela composição, ou seja, a força de atração que faz as coisas ligarem-se umas as outras. O seu opositor seria Anteros, o princípio da degeneração e decomposição. Duas faces da mesma moeda que é a vida, a criação.
O gregos viam em Eros a causa do embevecimento e da entrega decorrente da afeição (lembremos que afeição designa aquilo que vem de fora e atinge a pessoa sem que ela tenha controle sobre o ocorrido), daí a imagem de Eros com a flecha. Ninguém enfia uma flecha em si mesmo. Em alemão, paixão é Leidenschaft e Leiden é sofrimento. Afeição é passividade do sujeito. O amor erótico é marcadamente passional. Ser passional é sofrer de paixão. Paixão é a emoção que se sobrepõe à razão, à consciência crítica. No amor erótico, o sujeito vive um estado alterado de consciência. Essa alteração afeta o julgamento e a autocrítica. Freud foi quem mais advertiu que o fenômeno da excitação erótica está assentado no mesmo princípio da excitação assassina. Daí ele ter concluído que Eros e Tanatos predispõem os indivíduos à paixão, que tanto serve à criação (sexo) assim como à destruição (morte). Os deuses da paixão são tempestuosos e ligados ao presente. Eros e Tanatos são deuses das revoluções, das mudanças bruscas. São lados opostos de uma mesma moeda e isso nos faz crer que facilmente pode-se passar de um ao outro lado.
Mas nem sempre a vida é uma alternância imediata entre Eros e Tanatos. Os "estragos" causados por eles podem ser amenizados pela deusa Prudência, uma mulher com dois rostos, um voltado para o passado e outro para o futuro. Ao seu lado há um livro, uma ave noturna e um clepsidro (relógio de água) todos esses objetos são símbolos da circunspecção. Com humor, Helen Rowland sintetiza as presenças consecutivas de Eros, Prudência e Tanatos nesse poemeto:
"O homem rouba
o primeiro beijo,
implora o segundo,
exige o terceiro,
recebe o quarto,
aceita o quinto
e suporta os restantes."[2]
2.3 Philos
Conceito estritamente aplicado ao ser humano, philos está próximo ao que entendemos por amizade ou afinidade. É desta palavra que se originaram os termos filosofia (amizade à sabedoria); Felipe (afinidade com os cavalos); Filantrópico (amizade aos seres humanos). Cabe ressaltar que, em certo sentido, philos é exatamente o oposto de Eros. Enquanto Eros é passividade, philos é atividade. Para economizar palavras, transcreverei uma troca de e-mails entre mim e uma estudante, na qual tratamos exatamente desse assunto:
Oi, Israel!
Meu nome é Marcela, tenho 12 anos e estive em sua page ontem à noite. Cheguei até ela por causa de Caetano Veloso, já que estou buscando algum comentário dele sobre amor e amizade. Eu explico: junto com alguns amigos, estou escrevendo um jornal em minha escola (Colégio São Vicente de Paula - Rio de Janeiro) e o tema que escolhi para a minha "primeira matéria" foi baseado na letra da canção "Língua", do Caetano, quando ele fala que a poesia está para a prosa assim como o amor esta para a amizade e que não há como negar que a amizade é superior. A análise desta letra na sala de aula provocou polêmica, porque meus amigos não concordam com a opinião do Caetano. Daí, decidi fazer uma enquete com pessoas que dessem uma resposta original sobre o tema inclusive, pedi ajuda ao próprio Caetano, via Internet, mas duvido que ele responda! e acabei descobrindo sua HP. Por isso, se não for ocupar seu tempo, será que você participaria do meu jornal? Gostei muito do que você fala! Eu prometo que respeitarei todas as suas palavras, sem fazer edição ou qualquer coisa que venha adulterar seu pensamento. Por favor, participe e diga se você considera a amizade superior ao amor.
Cordialmente,
Marcela Pontes
Oi, Marcela.
O tema é polêmico porque as expressões "amor" e "amizade" já estão distorcidas pelo linguajar comum, mas acho que a filosofia pode ajudar um pouco a clarear o assunto.
Sob a ótica aristotélica, a amizade distingue-se do amor porque amor é afeição enquanto que a amizade é ação.
A amizade implica numa ação porque a pessoa desempenha um papel ativo. Ela resulta de uma escolha que a pessoa faz. Você escolhe os amigos. A amizade é uma prática, um hábito. Não é correto dizer "eu sinto amizade", o certo é "eu pratico a amizade".
Já o amor é uma afeição (afeição significa "sofrer uma ação"). Amar, portanto, é sofrer uma ação, pois a pessoa não tem como escolher a quem ama porque a afeição é algo que "vem de fora". Amar não é uma ação prática, pois implica numa passividade do sujeito. Nesse sentido, é certo dizer "eu sinto amor" e nunca "eu pratico o amor".
Talvez Caetano, em sua música, estivesse exatamente pensando na superioridade da ação sobre a afeição, ou seja, desempenhar um papel ativo é estar em superioridade política sobre aquele que é apenas passivo de um sentimento.
Espero que tenha ajudado!!
Um grande abraço.
Israel.
Philos realmente tem sido revestido de certa nobreza entre os filósofos. Talvez seja uma espécie de "amor morno", mais voltado para a vontade (disposição racional) do que para o desejo (disposição emocional). Não há melhor tratado sobre philos que o realizado pelos epicuristas. Vale a pena conhecer o significado da amizade, segundo Epicuro.
A necessidade de não ser agredido determina um contrato que instaura uma segurança calculada; isso é o direito, que rege a não-agressão recíproca entre pessoas, que, precisamente, não são amigas. A amizade é outra coisa completamente diferente: ela não é contratada, sendo mais essencial do que o cálculo. Ela também proporciona segurança, naturalmente, e bem maior do que aquela que é proporcionada pelo pacto social. Entre amigos, a noção do justo não tem mais lugar; não por irrupção da injustiça, é claro, mas pela superação do cálculo sobre o qual se fundam os contratos. A amizade está além do acordo contratado. [...] Ela é uma lei do ser-sábio. Ela implica que cada um encontre nela o desabrochar de sua própria sabedoria, na companhia da vários indivíduos, iguais, tornados homogêneos por uma felicidade comum.[3]
3. O amor platônico
Platão nos deu o primeiro tratado sobre o amor, traduzido para a língua portuguesa como O Banquete. Na versão inglesa, a obra traduz-se por The Symposium (O Simpósio), que, na Grécia Clássica, era o segundo momento de um banquete. Nele, os convidados se revezam para discursar sobre o amor, o que resulta numa rica abordagem do tema em que são analisados os diferentes tipos de amantes, a essência da relação amorosa e os diversos objetos do amor.
O livro termina com o discurso de Sócrates (personagem porta-voz do próprio Platão que, nessa obra, declara apenas relatar o que ouviu de uma mulher). Nesse discurso final, a filosofia é eleita a melhor forma de amor, uma vez que nobre é o seu objeto (o belo), nobre também é o amante (a alma) e da mesma nobreza é a relação entre amante e amado (philos). A identificação entre amor e filosofia fez a expressão "amor platônico" virar sinônimo de amor filosófico, mais especialmente da filosofia enquanto ascese (afastamento dos prazeres materiais através da contemplação do mundo espiritual).
A associação entre amor platônico e ascese fez com que o senso comum o reduzisse a amor que despreza o corpo. Há, entretanto, elementos presentes na obra de Platão que nos permite descobrir as riquezas do conceito de amor platônico. Um desses elementos pode ser extraído do mito relatado por um dos convivas do Banquete: Aristófanes. Segundo ele, em tempos imemoriais, a terra era habitada por seres esféricos com duas cabeças opostas e exatamente iguais, quatro braços, quatro pernas e duas genitálias. Uns com ambas as genitálias masculinas, outros com duas femininas e alguns com uma feminina e outra masculina. Havia então três gêneros de seres esféricos: o masculino, o feminino e o andrógino. Mutiplicavam-se como sementes, ou seja, enterravam-se no chão e daí brotavam outros seres tal como ocorre com as plantas, não empregando, portanto, suas genitálias para fins reprodutivos.
Por serem tão confiantes em sua força e coragem, essas criaturas decidiram invadir o Olimpo, a morada dos deuses. Irado com tal insolência, Zeus ordenou a Apolo que as castigasse, cortando-as ao meio a fim de se enfraquecerem, tranformando-os em humanóides. Cada ser passou então a ter uma cabeça, dois braços, duas pernas e uma genitália. Como as costas ficaram com carnes expostas em decorrência do corte, Zeus ordenou que Apolo pegasse as bordas da ferida e as esticasse, deixando apenas uma pequena abertura, o umbigo. Feito isso, Apolo girou para trás os braços, as pernas e a cabeça desses novos seres, de forma que eles, ao olharem para o próprio umbigo, lembrassem do castigo divino. A genitália, todavia, ficou esquecida na parte de trás.
Espalhadas pelo mundo, as metades perderam a vontade de viver: não mais comiam, nem bebiam e nem sequer "enterravam-se" para perpetuar a espécie. De tão deprimidas que ficaram, vagavam a esmo à procura de suas respectivas metades e, se ocorria de metades-irmãs se olharem, estas reconheciam-se de imediato e abraçavam-se intensamente uma a outra como se quisessem unir-se outra vez. E assim ficavam por tanto tempo que morriam. E a espécie foi desaparecendo.
Preocupado com a possível extinção da espécie, Zeus ordenou a Apolo que transpusesse as genitálias das metades para a frente, logo abaixo do umbigo, a fim de que, uma vez abraçadas, elas se unissem sexualmente. Ordenou, ainda, que a reprodução passasse a ocorrer pela cópula. É claro que apenas os seres esféricos andróginos foram "beneficiados" pela nova ordem de Zeus.
Esse mito transmite-nos uma série de pistas sobre o entendimento que Platão tinha sobre o amor. Temos aí um parecer sobre a natureza da homossexualidade, sobre a função do amor como remédio contra a violência, etc. Porém, o maior ensinamento está na idéia de amor complementar: Cada pessoa é uma metade que busca na outra o seu complemento, a sua alma gêmea, o côncavo e o convexo, a outra banda da macã. O outro é responsável direto pela felicidade do eu. No amor complementar ama-se porque não se tem. O amor é um desejo de suprir uma imperfeição intrínseca ao eu. O amor complementar é a busca da perfeição, logo o amante é, por definição, um ser imperfeito: amo-te porque preciso de ti.
4. Crítica à noção de amor complementar
Uma das primeiras críticas ao amor complementar partiu de um paradoxo cristão medieval: Se o amor é a busca da perfeição e se Deus já é perfeito, então Ele não pode amar suas criaturas. Mas foi com o advento do iluminismo francês e do liberalismo filosófico que a crítica à noção de amor complementar ficou mais definida. Como sabemos, o sistema liberal tem como expressão máxima o indivíduo enquanto todo indiviso a palavra indivíduo significa não-dividido . O antropocentrismo francês deixa claro: toda pessoa é um indivíduo e, se assim é, ningúem deve ser considerado metade de outra coisa ou de outro alguém. Ao entendermos que cada ser humano é completo em si mesmo, que se basta a si mesmo, temos de admitir novos valores tais como a idéia de que cada um é responsável pela sua própria felicidade. Tudo que cada um precisa está dentro de si mesmo:
Você é uma obra-prima e não precisa depender de ninguém, nem um, nem dez, nem cem, para completar o seu ser. Se der sorte, antes da morte, pode encontrar aquela tão sonhada cara-metade, mas não durma enquanto espera, cê tem sua própria vida pra viver. Desde feto, amores te complementam e te dão afeto, mas cê sozinho já é completo.[4]
Há possibilidade do amor dentro de uma ótica não-complementar? Jean Paul Sartre diz que o amor complementar leva à decepção porque precisa reduzir o sujeito a um objeto. Por outro lado, o amor entre dois sujeitos completos seria conflituoso porque um teria que ser o tudo, o infinito para o outro e o outro exigiria a mesma coisa e não pode haver dois tudos, dois infinitos. De qualquer forma o amor estaria destinado ao fracasso. Efetivamente, para Sartre, o amor é:
...querer situar-se além de todo o sistema de valores posto pelos outros, como a condição de toda valorização e como o fundamento objetivo de todos os valores. A vontade de ser amado é assim a vontade de valer para o outro como o próprio infinito. O olhar do outro não me permeia mais de finitude, não imobiliza mais o meu ser naquilo que sou simplesmente; eu não poderei ser olhado como feio, como pequeno, como vil, porque estes caracteres representam necessarìamente uma limitação de fato do meu ser e uma apreensão da minha finitude enquanto finitude. Mas para que o outro possa considerar-me assim, é preciso que ele possa querer, isto é, ser livre: por isso, a posse física, a posse do outro como coisa é, no amor, insuficiente e decepcionante. É preciso que o outro seja livre para querer amar-me e para ver em mim o infinito. O que quer dizer: é preciso que se mantenha como pura subjetividade, como o absoluto pelo qual o mundo vem ao ser. Eis aqui precisamente o conflito e o fracasso inevitável do amor: já que de um lado o outro exige de mim a mesma coisa que eu exijo dele ser amado e valer para mim como a totalidade infinita do mundo ;e do outro, justamente por amar-me, por querer isso, me decepciona radicalmente com o seu próprio amor: eu exigia dele que ele fundasse o meu ser como objeto privilegiado, mantendo-se como pura subjetividade em relação a mim; e, desde que me ama, ele me reconhece ao contrário como sujeito e se abisma na sua objetividade diante da minha subjetividade.[5]
O psicólogo Jacob Goldberg propõe um modelo de amor suplementar. Ele sugere inclusive que a palavra amor mude de nome porque ela simboliza hoje um sentimento neurótico. São dele as palavras que seguem: "O indivíduo procura a outra metade da maçã. Nós não somos maçã e não temos outra metade. Não temos alma gêmea. Temos pessoas que nos ajudam a ter uma qualidade de vida razoável."[6]
5. O amor na contemporaneidade
Penso que não se pode falar do amor na contemporaneidade sem colocar antes os valores predominantes do nosso tempo. É óbvio que, se estamos vivendo numa sociedade marcada pelo consumismo e pelo individualismo, o amor sofrerá os reflexos de tudo isso. A sociedade de consumo tem como um de seus princípios a descartabilidade em nome do lucro e a supervalorização do ter-aparecer em detrimento do ser. Tudo é descartável, inclusive as pessoas. É por isso que o "namorar" virou "ficar", o que deve ser mostrado é o que está na moda. O valor está no ter e não nos sentimentos. É por isso que ninguém está mais interessado nesse papo de beleza interior. O importante é ter-e-aparecer com um corpo-vitrine-da-moda (é isso mesmo: a gente "tem" um corpo, um objeto de vitrine), é ter-aparecer com o carro da moda. Nesse clima só há lugar para o amor narcisístico, que nada mais é que a própria impossibilidade de amar. O narciso é aquele que vive a maldição de não conseguir amar ninguém porque se apaixonou por uma imagem vazia, um mero reflexo... dele mesmo. Como ele não pode satisfazer a paixão, ele vive sozinho, sempre adiando a sua felicidade na espera de um alguém que dê vida a sua imagem, que "caiba no seu sonho" como diria Cazuza. O narciso não consegue amar alguém de carne e osso. O narciso é tão vazio que precisa se encher de coisas como carro do ano, parceiros sexuais simultâneos que não consentem com a simultaneidade, status advindo de dinheiro, roupas, medalhas, etc. Enfim, ele tem que aparecer como o melhor, tem que ser competitivo porque ele acredita (equivocadamente) que assim terá o amor dos outros. Mas como pode haver amor entre narcisos?
6. Poemas sobre o amor
Fernando Pessoa/Álvaro de Campos.
Obra Poética
Todas as cartas de amor são ridículas.
Não seriam cartas de amor
se não fossem ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser ridículas.
Mas, afinal, só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor é que são ridículas.
A verdade é que hoje as minhas memórias
Dessas cartas de amor é que são ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas, como os sentimentos esdrúxulos, são
naturalmente ridículas.)
Camões. Sonetos
Amor é fogo que arde sem se ver
é ferida que dói e não se sente
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer;
É um não querer mais que bem querer,
é solitário andar por entre a gente,
é nunca contentar-se de contente,
é cuidar que ganha em se perder;
é querer estar preso por vontade,
é servir a quem vence o vencedor,
é ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor,
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?
Vinícius de Moraes. Soneto do amor
total. In.: Antologia poética
Amo-te tanto, meu amor...não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.
Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente
E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer e de amar mais do que pude.
Gregório de Matos. In.: Obra
poética
O amor é finalmente
um embaraço de pernas,
uma união de barrigas,
um breve tremor de artérias,
uma confusão de bocas,
uma batalha de veias,
um reboliço de ancas,
quem diz outra coisa é besta.
Milton Nascimento. Canção da América
Amigo é coisa pra se guardar
Debaixo de sete chaves
Dentro do coração
Assim falava a canção que na América ouvi
Quem cantava chorou
Ao ver seu amigo partir
Mas quem ficou
no pensamento voou
Com seu canto que
o outro lembrou
E quem voou no
pensamento ficou
Com a lembrança que
o outro cantou
Amigo é coisa pra se guardar
No lado esquerdo do peito
Mesmo que o tempo e a
distância digam não
Mesmo que esquecendo a canção
O que importa é ouvir
A voz que vem do coração
Pois seja o que vier, venha o que vier
Qualquer dia, amigo eu volto
A te encontrar
Qualquer dia amigo a gente vai se encontrar.
Paulo Leminske. Caprichos &
Relaxos
"E o Amor, então,
também acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva
ou em rima."
Bibliografia específica
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. Trad., coord. e rev. por Alfredo Bosi e Maurice Cunio et alii. 2. ed. São Paulo: Mestre Jou, 1982.
BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia grega. 3 vols. Petrópolis, RJ: Vozes, 1988.
DUVERNOY, Jean-François. O Epicurismo e sua tradição antiga. Tradução por Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Zahar, 1993.
GOLDBERG, Jacob Pinheiro. O exorcista do amor. (entrevista). In.: ISTOÉ, São Paulo: Três, n.1370, p. 9-12, abr./1996.
PLATÃO. O Banquete. Tradução do grego por Jorge Paleikat e João Cruz Costa. Rio de Janeiro: Ediouro, s/ data.
SARLO, Beatriz. Figuras de Amor. In Instantâneas. Medios, ciudad y costumbres en el fin de siglo. Buenos Aires: Ariel, 1996.
SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o Nada: ensaios de ontologia fenomenológica. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1997.
Notas
[1] I Coríntios, 1-13
[2] Rowland, 1980: 12
[3] Apud Duvernoy, 1993: 125-7
[4] Gabriel, o pensador. Faixa Dentro de você. 1997
[5] Sartre apud Abbagnanno, 1982: 47.
[6] Goldberg, 1996: 7
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